ESTADOS DE CORPO

Ronald Augusto



(...) Ante-sala e Sala de Recepção de Dione Veiga Vieira: a artista demarca um espaço sacrificial para o corpóreo; o elogio erótico e necrópsico da carne. No entanto, resta um ar espiritual aos instrumentos que promovem o desmanche do corpo animal. Um mundo invisível na escureza dos objetos em negro, iluminados parcialmente pelo prateado das peças metálicas: ganchos, afiador, talheres, etc. O onirismo planificado do não-boi encarnado na metonímia de um par de chifres imensos, priápicos, que fazem, por sua vez, o contraponto com as meias femininas, preenchidas com pequenas peças de vidro: pornografemas, desejo em secções. O não-boi: a mesa em brilhante pelagem negra, macia; o assentamento matemático e surreal de coisa quadrúpede. O conjunto projetado por Dione alude a salas perversas que em sua árdua beleza e em sua precisão à maneira bauhaus, parecem aguardar o peso, a gravidade de corpos em postas, em pêndulos, dependuradas em meias, em pequenos ganchos argênteos, prosaicos e delicados, não obstante o torturante a que fazem alusão. Paixão ou mortificação dos significados. Mas, por outro lado, esses ganchos também estão ali como que à espera de sentidos, significações. Neles o fruidor (agora, essa palavra beira a condição de compósito verbal e suporta uma acepção quase intolerável) poderá dependurar, se assim o desejar, sua vontade de interpretação. A ausência da coisa demanda uma enfiada de nomes possíveis que lutam entre si na tentativa de substituí-la.

Ronald Augusto em Estados de Corpo, 2008.